O uso de colírios e outros medicamentos com corticoides sem prescrição médica pode provocar glaucoma e levar à cegueira, alertam entidades médicas brasileiras.
O aviso parte da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) e tem a automedicação como pano de fundo, hábito comum quando a irritação nos olhos reaparece e a pessoa repete o remédio por conta própria.
Confira, a seguir, por que esses medicamentos comprometem os olhos, quem corre mais risco e o que os especialistas recomendam.
Como os corticoides afetam a saúde ocular
Os corticoides são indicados para reduzir inflamações do organismo, como irritações nos olhos, alergias, crises respiratórias, sinusites e dores inflamatórias. O alívio costuma ser rápido, o que estimula a reutilização sempre que os sintomas voltam.
Com o uso prolongado, porém, eles dificultam a drenagem do líquido que circula no globo ocular. Esse líquido se acumula, eleva a pressão interna e, mantida por muito tempo, essa pressão causa lesões irreversíveis no nervo óptico, abrindo caminho para o glaucoma.
O uso indiscriminado das substâncias também repercute no restante do corpo. Entre as consequências apontadas estão:
- Aumento da glicose no sangue e descontrole do diabetes;
- Ganho de peso e retenção de líquido;
- Hipertensão e enfraquecimento dos ossos;
- Maior risco de infecções e alterações hormonais.
O alerta das entidades médicas sobre o uso por conta própria
Segundo a Agência Brasil, o uso inadequado de corticoides adquiridos sem receita pode contribuir para o surgimento e o aumento dos casos de glaucoma. O alerta é do presidente da SBG, Roberto Murad Vessani.
O glaucoma atinge o nervo óptico e é provocado pela elevação da pressão dentro do olho. A doença não tem cura e, quando não é tratada, pode levar à perda total da visão.
Para Vessani, o cenário é grave e configura um problema de saúde pública, já que muitas pessoas recorrem a esses remédios sem qualquer acompanhamento.
Veja se você está em um grupo de risco

Estima-se que ao menos 1,7 milhão de brasileiros convivam com a doença. De acordo com Vessani, de 2,5% a 3,5% das pessoas acima dos 40 anos já têm glaucoma, e a prevalência quase dobra a cada década a partir dessa idade.
Outro ponto de atenção é a sensibilidade ao medicamento. Cerca de 90% de quem já tem glaucoma reage ao corticoide com elevação significativa da pressão ocular, o que agrava o quadro existente.
Crianças alérgicas estão entre os grupos mais vulneráveis: o uso crônico de colírios com corticoide, muitas vezes feito pelos pais sem orientação, pode aumentar a pressão do olho ou antecipar o surgimento de catarata. Idosos com doenças que exigem o remédio de forma contínua também correm risco maior.
Saiba o que pode mudar na venda do medicamento
Diante do problema, a SBG, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) enviaram uma nota pública à Anvisa, ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a entidades médicas de várias especialidades.
A proposta é submeter os corticoides ao mesmo rigor já aplicado aos antibióticos, cuja venda exige duas vias da receita, sendo uma retida pela farmácia para informar os órgãos reguladores. As entidades também buscaram sensibilizar parlamentares em reunião sobre o tema.
Vessani observa que, em muitos países desenvolvidos, o controle desses medicamentos é maior e a troca de informações entre as especialidades médicas funciona melhor do que no Brasil.
Entenda quando buscar avaliação médica
Especialidades como ortopedia, reumatologia, pediatria e geriatria receitam corticoides para tratar diversas condições, mas o paciente pode conviver com o glaucoma sem saber. Daí a importância de não deixar a saúde dos olhos sem acompanhamento de um especialista.
O presidente da SBG reforça que o colírio de antibiótico costuma oferecer menos perigo do que o de corticoide usado sem critério. Em poucas semanas de uso contínuo, a pressão ocular já pode começar a subir, muitas vezes sem que a pessoa perceba.
Por isso, as três entidades recomendam acompanhar de perto a pressão intraocular de quem utiliza essas fórmulas por períodos prolongados, com atenção especial a crianças e aos grupos de risco. Antes de pingar qualquer colírio por conta própria, o mais seguro é consultar um oftalmologista.
Ao primeiro sinal de irritação que insiste em voltar, o caminho seguro não é repetir o colírio por conta própria, e sim marcar uma avaliação. No Alerta Gov, você acompanha outras orientações de saúde que ajudam a proteger o que é essencial, começando pela sua visão.












