Os Estados Unidos confirmaram uma tarifa extra de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. A cobrança foi anunciada na noite de quarta-feira (15) pelo USTR (o Escritório do Representante Comercial dos EUA) e começa a valer em 22 de julho.
A medida vem acompanhada de uma longa lista de exceções: café, carne bovina, suco de laranja, petróleo e aviões, por exemplo, ficaram de fora.
Ainda assim, boa parte das exportações será afetada, e o governo brasileiro já anunciou reação, com a Lei da Reciprocidade e uma reclamação na Organização Mundial do Comércio (OMC).
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RECEBER ALERTAS →Confira, a seguir, o que é a tarifa, como chegamos até aqui, quais produtos entram e quais ficam de fora, por que os EUA aplicaram a medida, como o Brasil respondeu e o que isso muda no bolso do brasileiro.
Entenda o que é o tarifaço de 25%
Trata-se de uma tarifa adicional de 25% cobrada na entrada de produtos brasileiros nos Estados Unidos.
Ela se soma ao imposto de importação que já existe, encarece esses itens no mercado americano e tende a reduzir a competitividade das vendas do Brasil por lá, já que o produto brasileiro fica mais caro que o de concorrentes.
A decisão foi tomada pelo USTR, a pedido do presidente Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento que os EUA usam para retaliar práticas comerciais que consideram injustas.
Segundo o comunicado oficial, a tarifa passa a valer para os produtos que chegarem aos Estados Unidos a partir das 0h01 (horário de Brasília) de 22 de julho.
De 2025 a 2026: a escalada que levou à tarifa de 25%
A tarifa não surgiu do nada. Ela é o capítulo mais recente de uma escalada que começou em 2025, quando o governo Trump passou a mirar o Brasil em várias frentes.
Ainda em abril de 2025, os EUA aplicaram uma tarifa geral de 10% sobre produtos brasileiros e de 25% sobre aço e alumínio. Em julho daquele ano, o governo americano anunciou uma sobretaxa bem maior, de até 50%, que na época associou ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Essa cobrança foi depois reduzida a 40%, ganhou uma lista de isenções e, em novembro de 2025, os EUA chegaram a revogar a sobretaxa sobre produtos agrícolas, como carne, café e frutas.
Em 2026, a Suprema Corte dos EUA considerou ilegais as tarifas globais baseadas em uma emergência nacional. Com isso, o governo Trump passou a usar outras bases legais, e a Seção 301 é uma delas. A investigação que resultou nos 25% de agora começou em julho de 2025 e levou cerca de um ano até a decisão final.
Quais produtos são taxados e quais ficaram de fora
A tarifa atinge a maior parte das importações vindas do Brasil, mas o governo americano publicou uma lista com mais de mil produtos poupados, entre eles cerca de 430 linhas ligadas a aeronaves civis.
Os principais itens isentos são:
- Café;
- Carne bovina;
- Laranja e suco de laranja;
- Petróleo e derivados;
- Aeronaves civis e suas partes;
- Celulose (com exceção da celulose solúvel de alta pureza);
- Castanhas e alguns frutos.
A justificativa para muitas dessas exceções é que se trata de produtos importantes para os próprios Estados Unidos, alguns com peso na inflação americana ou sem substituto na produção local.
Já itens como aço, alumínio e cobre não entram nessa conta porque estão sujeitos a outras tarifas específicas dos EUA.
Segundo o governo americano, apenas dois grupos que estavam na proposta inicial acabaram retirados da lista de isenções: a celulose solúvel de alta pureza e alguns usos não farmacêuticos de determinados produtos.
Por que os Estados Unidos aplicaram a tarifa

Segundo o USTR, a tarifa é a conclusão de uma investigação que apontou práticas brasileiras consideradas prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos. Os principais pontos citados pelo governo americano são:
- Comércio digital e meios de pagamento eletrônico, incluindo o tratamento dado ao Pix e ordens para que plataformas dos EUA removessem conteúdos e suspendessem contas;
- Tarifas preferenciais consideradas injustas;
- Falhas no combate à corrupção;
- Proteção à propriedade intelectual;
- Barreiras ao etanol americano;
- Desmatamento ilegal.
Na visão de Washington, essas políticas colocariam empresas americanas em desvantagem, sobretudo no setor de pagamentos e de tecnologia.
No caso do Pix, o USTR sustenta que o tratamento dado ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos prejudicaria as empresas americanas do setor. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o governo brasileiro não teria negociado de boa-fé.
O caso também tem um pano de fundo político. Parte das medidas de 2025 foi associada pelos EUA ao processo contra Bolsonaro, o que o governo brasileiro classifica como interferência.
Washington, por sua vez, afirma que a tarifa atual trata apenas de comércio. É uma disputa em que os dois lados apresentam versões diferentes.
Como o Brasil respondeu: Lei da Reciprocidade, OMC e Plano Brasil Soberano
Em nota assinada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o governo brasileiro repudiou a decisão e disse não reconhecer a legitimidade das investigações, segundo a Agência Brasil.
Para o Planalto, o dia 15 de julho de 2026 entra na história das relações entre os dois países como um marco lastimável.
A Lei da Reciprocidade
A principal ferramenta anunciada é a Lei da Reciprocidade (Lei nº 15.122/2025), aprovada por unanimidade no Congresso e já regulamentada.
Ela autoriza o Brasil a reagir de forma proporcional, com medidas como suspender concessões comerciais, restringir investimentos, suspender obrigações de propriedade intelectual, como patentes, e aplicar tarifas sobre produtos importados.
As decisões passam por um comitê interministerial, presidido pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
Até a decisão, a lei vinha funcionando mais como instrumento de pressão nas negociações do que de aplicação prática, e a própria norma prevê que as contramedidas sejam proporcionais e que as consultas diplomáticas venham antes das retaliações.
A OMC e o Plano Brasil Soberano
Além da reciprocidade, o governo pretende levar o caso ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC, no plano externo. Internamente, mantém o Plano Brasil Soberano, voltado a proteger os setores atingidos e preservar empregos, com apoio de crédito e financiamento às exportações.
Os argumentos do governo brasileiro
O governo rebateu o argumento comercial dos EUA com números: afirma que os americanos acumularam US$ 424,5 bilhões de superávit em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos e que, em 2025, 76% das importações vindas dos EUA entraram no país sem imposto de importação, com alíquota média de apenas 3,1%.
A nota ainda contesta ponto a ponto as acusações. O governo classifica como descabidas as alegações sobre o Pix, que chama de patrimônio do povo brasileiro e referência de infraestrutura pública digital, e nega as acusações de desmatamento, citando a redução do desmate desde 2023.
Afirma ainda que, nas audiências públicas do USTR, a maioria das manifestações foi contrária à tarifa e que o Brasil nunca deixou a mesa de negociação.
O que o tarifaço muda no bolso do brasileiro?
O aumento de 25% nas tarifas sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos não significa que o consumidor brasileiro verá esse mesmo percentual de aumento nos preços do supermercado.
A cobrança ocorre na entrada dos produtos no mercado americano e afeta diretamente, principalmente, as empresas que vendem para os Estados Unidos.
O impacto para o brasileiro tende a acontecer de forma indireta, principalmente por dois caminhos:
Dólar mais caro pode pressionar preços
Uma disputa comercial pode aumentar a insegurança no mercado e pressionar a cotação do dólar. Quando a moeda americana sobe, produtos importados e matérias-primas usadas pela indústria brasileira ficam mais caros, o que pode aumentar custos de produção e influenciar a inflação.
Empresas exportadoras podem reduzir produção e empregos
Setores que dependem das vendas para os Estados Unidos podem enfrentar queda na demanda, caso os produtos brasileiros fiquem mais caros para os consumidores americanos. Com menos vendas, algumas empresas podem reduzir a produção, adiar investimentos ou até diminuir postos de trabalho.
Na prática, os efeitos maiores devem aparecer em setores industriais e produtos que perderem competitividade no mercado americano. O impacto final dependerá da reação das empresas, do governo e do comportamento do câmbio nas próximas semanas.
O que ainda pode mudar
Apesar do tom duro dos dois lados, as negociações não estão totalmente fechadas: o próprio USTR afirmou que os Estados Unidos seguem abertos a conversar para resolver as pendências. Isso significa que a lista de produtos e até o percentual da tarifa podem ser revistos antes ou depois de 22 de julho.
No campo multilateral, a disputa na OMC costuma ser demorada e não resolve o problema no curto prazo.
Já uma eventual retaliação brasileira, pela Lei da Reciprocidade, poderia elevar a tensão e abrir caminho para uma guerra comercial, cenário que especialistas consideram possível, ainda que a expectativa seja de que a via diplomática seja priorizada.
O tarifaço pode trazer impactos para a economia brasileira e ainda depende de novas decisões, como a definição dos produtos afetados e as respostas do governo.
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